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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Clube da Esquina: de Minas para o Mundo


As riquezas da cultura brasileira são oriundas de todas as regiões do País. Nas décadas de 1960 e 1970, embora muitos artistas tenham migrado para o eixo Rio-São Paulo – pois era onde se concentravam os festivais de música, as emissoras de rádio e os incipientes canais de TV –, a Música Popular Brasileira constituía-se num primoroso mosaico. A gaúcha Elis Regina, os baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil e o paulista-carioca Chico Buarque são só alguns dos exemplos mais evidentes. Mas a terra dos inconfidentes também estivera bem representada. Sorrateiro e sereno como um bom mineiro, o Clube da Esquina, encabeçado por Milton Nascimento, mostrou ao mundo a genialidade da gente brasileira.

Ao contrário do que possa parecer, o Clube da Esquina não existia enquanto espaço físico: tratava-se tão-somente de uma esquina entre as ruas Paraisópolis e Divinópolis, no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte. De dia, as crianças ali brincavam; à noite, os jovens tocavam suas violas, tomavam batidas de limão, namoravam e não deixavam os sonhos envelhecerem – mesmo com a crescente repressão do regime militar, instaurado com um golpe de estado em 1964.

Além do já citado cantor e compositor Milton Nascimento, o clube possuía outros “associados”, como os irmãos Márcio e Lô Borges, o compositor Fernando Brant, o multi-instrumentista Beto Guedes, os músicos Wagner Tiso e Toninho Horta, dentre outros. Cada um desses indivíduos é responsável, de alguma forma, pela concretização do “movimento” mineiro. Na verdade, é importante ressaltar que, diferentemente do movimento tropicalista ou das manifestações artísticas ligadas ao CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE, o Clube da Esquina não possuía um manifesto, propostas políticas, objetivos bem delineados ou qualquer outra característica comum aos movimentos artísticos daquele período. Contudo, isto não o torna menor, pois fora justamente com este posicionamento aparentemente “descompromissado” que eles confrontaram a realidade latino-americana.

Pode-se dizer que o embrião do Clube crescera paralelamente à amizade entre Bituca – como Milton era chamado pelos amigos – e Márcio Borges. Depois de assistirem a inúmeras sessões do filme Jules et Jim, de François Truffaut, os dois foram à casa da família Borges iniciar uma parceria que duraria anos. Daquele encontro nasceriam canções como "Crença", "Irmão de Fé" e "Gira, girou", que entrariam no primeiro disco de Milton, gravado em 1967. Já a parceria com Fernando Brant ocorre de maneira diferente. Milton havia composto uma canção e não sabia quem deveria pôr a letra. Assim, decide que Fernando seria a pessoa ideal para, através das palavras, expressar o que ele queria dizer com a música. Depois de muito hesitar, Fernando Brant escreve a bela "Travessia" – última palavra do livro Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e, até hoje, uma das canções mais conhecidas de Milton Nascimento.

Em 1972, o Clube da Esquina sairia de Minas Gerais para o mundo. Milton Nascimento, já conhecido nacional e internacionalmente, convidara o, então, menino Lô Borges para gravar um disco. Juntaram-se à empreitada, além dos músicos aqui citados, Eumir Deodato, Nelson Ângelo e Ronaldo Bastos. A “sede” do clube fora, temporariamente, transferida da esquina para uma casa na Praia de Piratininga, em Niterói (RJ). Lá, a heterogeneidade dos participantes, com influências que iam desde o jazz de Miles Davis até o rock dos Beatles, faria da gravação do álbum Clube da Esquina uma verdadeira oficina de experimentação poético/musical. A princípio, a crítica não entendera o caráter inovador do projeto. Todavia, hoje, os dois discos do Clube – posteriormente foi gravado o segundo, em 1978 – são reconhecidos mundialmente como clássicos da música brasileira.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Nelson Cavaquinho - Depoimento de Poeta (1974)


Não há perdão para os pecados cometidos contra a cultura de um país. A violação ocorre tanto pela absorção exacerbada de elementos estrangeiros que, quando incapazes de dialogar com a cultura nativa, fomentam uma relação parasitária e opressora, como pelo simples desdém para com os grandes artífices desse berço esplêndido. É lamentável - para não mencionarmos uma extensa lista - que compositores do porte de Cartola (1908-1980) e Nelson Cavaquinho (1911-1986) tenham gravado, tardiamente, seus primeiros discos.

Noel Rosa, contemporâneo de ambos e vítima da tuberculose aos 27 anos, deixou mais de 200 canções gravadas! Algumas, inclusive, compostas em parceria com um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, o já mencionado Angenor de Oliveira - Cartola. Mas, como bem nos alertou o Maestro Soberano (Tom Jobim), “nosso mais-que-perfeito está desfeito e o que me parecia tão direito caiu desse jeito sem perdão”. Segue abaixo o texto que fora escrito pelo jornalista e pesquisador Sérgio Cabral na contracapa da edição de 1974 do primeiro LP gravado por Nelson Cavaquinho, nosso poeta maldito.

“Este foi o primeiro LP gravado por Nelson Cavaquinho. Foi uma idéia audaciosa de Paulo Cesar Costa produzir um disco com a voz desse genial compositor – uma voz que até então fora utilizada apenas nas cantorias de mesa de bar, em shows e em pequenas intervenções em discos gravados por outros cantores. Foi um disco tratado com muito carinho mas que, por razões exclusivamente empresariais, não teve a menor repercussão.

A Continental fez muito bem em relançar em 1974 um disco gravado em 1970. Trata-se de uma gravação praticamente inédita e, ao mesmo tempo, maravilhosa. Aqui, vocês ouvirão a voz, as melodias e as letras de (não é modo de falar, não. É verdade) um gênio. A obra de um cara que não sofre da neurose da forma, da neurose do sucesso, da neurose da sobrevivência profissional. De um artista puro e integral.

E além disso, este LP contém diálogos de Nelson Cavaquinho com a escritora Eneida de Morais. Vocês ouvirão, portanto, a voz da inesquecível Eneida, uma das melhores figuras humanas que já conheci e uma intelectual que deu muito à cultura do nosso país. Nelson Cavaquinho conversa também com a nossa querida Elizeth Cardoso, com Oswald Sargentelli e com o locutor que vos fala.

E ainda querem mais? Pois neste disco vocês ouvirão o flautista Altamiro Carrilho melhor do que nunca. Um Altamiro que reúne a sua magnífica técnica de instrumentista com uma grande paixão pelo que está fazendo. Prestem atenção, por exemplo, na sua participação em Degraus da Vida.

E, como dizia a velha canção, melhor que isso não podemos lhe dar. Só o céu e as estrelas. Mas Nelson Cavaquinho está perto disso”.

sábado, 27 de setembro de 2008

Trópicos de vanguarda: 40 anos de pão e circo


No final da década de 1960 o mundo parecia explodir – ou implodir – a qualquer momento. A guerra do Vietnã despertara as consciências para os horrores de um conflito bélico; a Guerra Fria dividira o planeta; diversos países da América Latina estavam sob o poder de regimes ditatoriais; mulheres, negros e homossexuais lutavam pelo fim dos preconceitos; as artes clamavam por rupturas. Assim, vanguardas surgem em todas as partes e de formas diferentes, mas buscando algo em comum: mudança. No quadragésimo aniversário do disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circencis, são perceptíveis as transformações trazidas pelo movimento que abalou o Brasil. A rápida aparição do tropicalismo - como ficara conhecido - deixou sua marca na história do país.

O embrião do tropicalismo encontrava-se no Teatro Vila Velha, em Salvador. Ali estavam presentes, além dos idealizadores Caetano Veloso e Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa e Maria Bethânia. Em 64, ao substituir Nara Leão no espetáculo Opinião, Bethânia havia ganho maior popularidade. E, apesar de não ter participado do movimento, fora ela quem incentivara o irmão, Caetano, a ouvir Roberto Carlos. “Quando chegou a hora do tropicalismo – em que vários estilos extrovertidos foram convocados, e o estilo cool da bossa nova aparecia apenas eventualmente como um elemento a mais nas canções-colagens -, um dos seus primeiros anúncios foi feito por Bethânia, chamando-me a atenção para a “vitalidade” de Roberto Carlos”. (Verdade Tropical - Companhia das Letras)

Naquele período, pós-bossa nova, tentava-se separar a música brasileira em dois grupos: nacionalistas, ligados à esquerda, e a Jovem Guarda. Descontentes com os rumos do país, tanto no âmbito artístico quanto no político, os tropicalistas posicionam-se frente a uma nova estética que fosse capaz de universalizar a linguagem da MPB (Música Popular Brasileira) e quebrar as barreiras vigentes. Incorporando guitarras elétricas, psicodelia, bossa, samba, rumba e muita ironia, o movimento contribuiu para a modernização da cultura nacional.

Nelson Motta, no jornal Última Hora, definiu o que chamou de “tropicalismo” da seguinte forma: “Assumir completamente tudo que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra ainda desconhecido”. (A Cruzada Tropicalista, 05/02/1968). Um amigo de Caetano, que havia visto a exposição Tropicália, do artista plástico Hélio Oiticica, sugeriu que a palavra fosse utilizada em sua nova canção. Depois de muito hesitar, o baiano aceitou a sugestão e a incluiu em seu segundo disco.

Entre tantas manifestações artísticas, o filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, e a montagem da peça O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, por José Celso Martinês, foram de suma importância para o nascimento da Tropicália. “Se o tropicalismo se deveu em alguma medida a meus atos e minhas idéias, temos então de considerar como deflagrador do movimento o impacto que teve sobre mim o filme Terra em Transe”. (Verdade Tropical). As obras da artista plástica Lygia Clark, as guitarras de Jimi Hendrix e a Utopia Antropofágica de Oswald de Andrade também influenciaram os jovens artífices.

Mas a maior inspiração de Gil viera de uma temporada em Recife. Lá, além de conhecer as vanguardas locais, encantou-se com a Banda de Pífanos de Caruaru. Enquanto isso, Caetano conversava com amigos, como Augusto de Campos e José Agrippino, sobre o audacioso projeto, e compunha novas canções. Era a época dos grandes festivais. O programa anárquico do Chacrinha (Abelardo Barbosa) estava no ar. A contracultura norte-americana atraía milhares de jovens. A ditadura brasileira, instaurada com um golpe em 64, apertava o cerco contra a oposição.

Em uma atitude provocativa, Caetano e Gil decidem deflagrar o tropicalismo no festival da TV Record de 1967. Caetano entra no palco acompanhado do grupo de rock argentino Beat Boys para apresentar "Alegria, Alegria", uma canção cheia de referências. E Gil, ao lado do músico erudito Rogério Duprat e dos Mutantes (Arnaldo Dias, Sérgio Dias e Rita Lee), toca "Domingo no Parque", concebida como um filme. No início, as guitarras e as roupas - sugeridas pelo produtor Guilherme Araújo - haviam provocado certo espanto, mas as canções logo caíram no gosto dos ouvintes. O primeiro ato fora concluído com êxito, restava saber o que viria depois.

No ano seguinte, o disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circencis foi concluído. Participaram, além dos já citados, os poetas Capinan e Torquato Neto, o produtor Manoel Bareinbein, o maestro Julio Medaglia, e a cantora Nara Leão. A capa do LP, assim como de outros discos do movimento, ficou a cargo do artista Rogério Duarte. O disco foi amado e odiado. Alguns intelectuais acreditavam que tudo não passava de marketing; outros defendiam o movimento com unhas e dentes. Mas o fim do tropicalismo era inevitável. O regime militar percebeu que, por trás daquela alegoria, havia uma forte crítica à realidade brasileira. Em seguida, Gil e Caetano foram presos e exilados. Quarenta anos depois, fica evidente a necessidade de novas rupturas e, principalmente, novas utopias.

terça-feira, 18 de março de 2008

Vozes da América


Entre raízes africanas e européias, Brasil e Cuba celebram a beleza da América Latina nas vozes de Maria Bethânia e Omara Portuondo, duas veteranas consagradas pelo tempo e adoradas pela história. A idéia veio da brasileira que, em 2005, efetuou o convite à Omara, uma das grandes intérpretes do documentário Buena Vista Social Club do realizador alemão Wim Wenders. O encontro resultou em um excelente disco, lançado pela gravadora Biscoito Fino.

No último sábado, 15, as duas encerraram a temporada carioca, numa noite chuvosa e emocionante. Para quem teve a oportunidade de ir ao Canecão, mesmo com o quase desdém por parte do público, que - não se contendo com os celulares, as conversas e as latas se abrindo – batiam palmas desnecessárias, semelhantes às dos extintos showmícios, a noite foi inesquecível na Cidade Maravilhosa.

No repertório, além de quase todas as músicas do disco, estavam canções de indubitável importância para se compreender a complexidade da música latina como manifestação cultural e beleza estética. A Abelha Rainha e Omara entram no palco com um grupo de músicos de extrema competência: arranjos, regência e violões, Jaime Alem e Swami Jr.; piano e acordeom, João Carlos Coutinho; baixo, Jorge Helder; percussão, Marcelo Costa, Andrés Coayo e Claudinho Brito.

Abriram o espetáculo com Cio da Terra (Milton Nascimento e Chico Buarque), que certamente traduz o significado do encontro. As composições de Chico Buarque aparecem em outros momentos: Gente Humilde, composta com Vinicius de Moraes e Garoto; Partido Alto e O Que Será? (À Flor da Terra). Esta, como parte do repertório, teve sua versão em espanhol cantada pela cubana.

No decorrer da apresentação, nos é apresentado o resultado de uma vasta pesquisa musical, em ambos os territórios. Assim como as cantoras encontram semelhanças entre seus ancestrais, muitas são as canções que se mostram análogas. Caipira de Fato (Adauto Santos) e El Amor de Mi Bohío (Julio Brito) são algumas delas.

Ouve-se Luiz Gonzaga Jr. (Gonzaguinha) em dois momentos marcantes deste belíssimo encontro. O primeiro, Bethânia canta Começaria Tudo Outra Vez (canção que vem acompanhando sua carreira); o segundo, para encerrar com a suavidade de duas rosas, Maria Bethânia e Omara Portuondo interpretam Palabras (Marta Valdés) e Palavras do eterno Gonzaguinha. No final, a sensação de que, apesar dos pesares, há muito que se comemorar na rica América Latina.