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domingo, 22 de novembro de 2009

Minha humilde nudez

Quando eu envelhecer, só andarei nu pela casa vazia. Agora, não. Porque, embora eu tenha nascido no tempo das chacretes, do “amor livre” e da arte moderna, a nudez ainda provoca mal-estar social. Não é todo mundo que consegue se desvencilhar, da noite pro dia, de seu lifestyle. Afinal, é a identidade de muitos eus que está em jogo. Mas eu conseguirei! Desprezarei o despojamento do jeans e o estilo casual das t-shirts; recusarei o conforto do tênis shox e a elegância dos sapatos sociais. Nada de acessório, utensílios e penduricalhos. A nudez pura e simplesmente.

Até lá, a arquitetura e a engenharia conspirarão a favor deste desejo. Os prédios serão enfileirados, qual um exército napoleônico, a fim de atender à máxima dos profissionais destas áreas: “Pouca fresta, pouco espaço”. Ou seja, não haverá quem denuncie os meus atos, pois não haverá a polis, não haverá ruas do Rio nem ruas de João. A cidade será composta de prédios e mais prédios, lado a lado, frente a frente.

Se o caro leitor quiser ir da ex-Rua do Ouvidor à ex-Praça Tiradentes, terá duas opções: pegar um metrô, que continuará funcionando normalmente debaixo da terra, ou ir a pé. Na verdade, tal transporte não se assemelhará em nada com aquele costumeiro passar de pernas. Trata-se de um elevador cilíndrico, análogo às manilhas de esgoto atuais, mas muito mais sofisticado, por onde nós seremos transportados do Edifício do Ouvidor até o Edifício Tiradentes.

Todavia, é bom alertá-lo que nem todos precisarão participar deste périplo. A locomoção ficará restrita a uma espécie de neoproletariado, composta, em sua maioria, pelos entregadores de pizzas, chocolates, remédios, drogas e afins. O senhor ou a senhora, que provavelmente pertencerá à classe dos abastados, não sairá de sua residência para fazer absolutamente nada. Alimentação, saúde, trabalho, lazer, compras? Tudo feito virtualmente, em nome da praticidade. Ora, mas e a reprodução? É só escolher, via web, o embrião que mais lhe apetece, todos embalados hermeticamente.

O progresso será o redentor da nossa nudez. Seremos verdadeiramente livres, pois poderemos voltar ao tão questionado “estado de natureza”, sem precisarmos, no entanto, sujeitar à nossa liberdade a liberdade do outro. Viveremos, enfim, em harmonia plena.

Para isto ocorrer, a realidade social será travestida em reality show. As telas se multiplicarão feito coelhos insaciáveis. A casa inteira será composta de câmeras com telas, tevês com telas, computadores com telas, telefones com telas, relógios com telas e, o maior avanço tecnológico, privadas com telas.

Nossos erros e acertos passarão pelo crivo de algo que estará acima de nós. O acaso perecerá. Mas, pensando bem, essa Coisa Maior, sem vínculo divino, senhora de todas as telas, pode desaprovar a minha nudez. E, se assim o for, quando os pêlos das narinas engrossarem e os do peito, que demorei tanto tempo para cultivar, resolverem cair, quando os fios acinzentados pousarem sobre a minha cabeça e, por fim, quando meu corpo e minha visão começarem a fraquejar ao som das batucadas da vida, aí será tarde demais para a minha humilde nudez.

sábado, 10 de outubro de 2009

Fósseis do totalitarismo

A América Latíndia, lugar fictício descrito pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão no romance “Zero”, cuja instabilidade socioeconômica e o regime autoritário integravam um mosaico tragicômico, assemelha-se, vez e outra, com a nossa América Latina. Aqui, os ideais reacionários, aparentemente cadavéricos, ressurgem das profundezas, exortados pela grande mídia dos trópicos, a fim de servirem de alegoria a um infindável baile momesco. Na atual conjuntura, o golpe de Estado perpetrado em Honduras, embora não tenha agradado à comunidade internacional, foi ovacionado pela imprensa tupiniquim.

Não há nenhuma novidade neste fato. Pois, como bem analisou o colunista Mauricio Dias (Carta Capital, 2/9/2009), o professor aposentado de teoria política da UFRJ Wanderley Guilherme dos Santos, renomado cientista político, já havia dito que “a exemplo de toda a imprensa, denominada grande, latino-americana, jamais hesitou em apoiar todas as tentativas de golpe de Estado, quando estas significavam a derrubada de presidentes populares ou o fechamento de congressos de inclinação mais democrática”.

Ora, esta foi justamente a atitude tomada por diversos veículos diante da instauração, no último dia 28 de julho, de um governo militar em Honduras, sob o comando de Roberto Micheletti, e da consequente deposição do presidente José Manuel Zelaya. A revista Veja, por exemplo, ainda que seja dissimulada no que diz respeito à sua função social, não poupou esforços para evidenciar o seu caráter ultra-conservador.

O império (contra)ataca

Na capa da edição do dia 30 de setembro, a revista semanal da editora Abril exibiu a seguinte manchete: “O Imperialismo Megalonanico”, em referência ao asilo dado pela embaixada brasileira em Tegucigalpa ao presidente Zeleya. Segundo a Veja, agindo desta forma, o Brasil, supostamente instigado pelo presidente venezuelano Hugo Chávez, estaria contrariando sua “tradição diplomática”.

Em meio às linhas grotescas da matéria de capa, o leitor pode se deparar com vaticínios do tipo: “Com as eleições marcadas para o próximo dia 29 de novembro, o governo interino [leia-se, ditadura] que derrubou Zelaya se preparava para reconduzir o país à normalidade democrática”. Coincidentemente, este fora o mesmo discurso utilizado pelos generais brasileiros – e largamente difundido pela imprensa – na ocasião do golpe de 1964 que, talvez por força do destino, perdurou até 1985.

Apoiando-se na Constituição hondurenha, cujo artigo 374 torna inválido qualquer plebiscito ou referendo que possibilite a renovação do mandato presidencial, os golpistas acusam Manuel Zelaya de tentativa de continuísmo. Para o professor de direito constitucional da PUC-SP Pedro Estevam Serrano, em artigo publicado na Folha de S.Paulo (30/9/2009), “Zelaya tem afirmado que sua proposta é de possibilitar a reeleição de futuros presidentes, e não dele próprio. Assim, ele não teria apoiado, promovido ou incitado o continuísmo do atual presidente – ele próprio”.

Salvo raras exceções, o importante papel desempenhado pelo governo Lula na geopolítica mundial tem recebido total desprezo pela mídia. A boa desenvoltura do País diante de uma das piores crises econômicas dos últimos anos, a astuciosa política externa, que inclui o caso de Honduras, com vistas a adquirir uma vaga no Conselho de Segurança da ONU e, sobretudo, as transformadoras, embora insuficientes, ações sociais de nada valem aos megalonanicos oligarcas das comunicações.

A imprensa nativa tem todo o direito de ter opiniões e preferências políticas. O problema é que, conforme afirmara Wanderley Guilherme, “há muito da realidade que não está na imprensa e há muito do que está na imprensa que não está na realidade”. Resta saber se, a exemplo do país da América Central, os arqueólogos-verde-e-amarelo têm como meta a procura, incansável, de fósseis do totalitarismo.


* Texto publicado no Observatório da Imprensa

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Todos dançam a mesma dança

O presidente do Senado, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e latifundiário, José Sarney (PMDB-AP), é uma figura importante neste Brasil varonil. Enquanto alguns políticos contemporâneos, assim como alguns cidadãos, desdenham o passado e o futuro – preferem ficar entrevados em um presente insosso, preocupando-se tão-somente com o hoje e a eterna jovialidade –, ele, ao contrário, além de se manter fiel às suas origens, é agente passivo e, amiúde, ativo da sucessão de fatos que compõem a história do País.

Na verdade, a fidelidade nem sempre foi o seu forte. Em 1965, o “Zé do Sarney”, como fora alcunhado no Maranhão, seu habitat natural, trocou o nome de batismo, José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, por José Sarney de Araújo Costa. A permuta fora efetuada para fins eleitorais. Provavelmente, acreditava-se que José Sarney seria um nome de maior impacto político. Alguém duvida? Basta ler os jornais, sites, blogs, twiters – o mais recente grunhido democrático – e afins ou ver a tevê para constatar a veracidade desta afirmação.

A relação do presidente do Senado com a mídia tupiniquim é outra página importante da biografia deste quase octogenário. Mesmo sendo um homem íntegro e preocupado com o povo maranhense, às vezes comete pequenos deslizes aqui e acolá, que não agradam sua vedete. O controle das concessões públicas de comunicação é um bom exemplo desta relação de amor e ódio. É sabido que o jornal O Estado do Maranhão e a TV Mirante – afiliada da Rede Globo –, dois grandes veículos de comunicação, pertencem à família Sarney. Vale ressaltar que a lei 4.117/62 proíbe o uso de emissoras de televisão para fins políticos, já que as mesmas são concessões públicas.

No presente momento, é notório que o casório esteja em crise. Segundo alguns analistas, o imbróglio iniciou-se após a pulada de cerca derradeira; para outros, tudo não passou de vaidade feminina: a amada não recebeu a gratificação esperada. Mas, diferentemente das outras desavenças, ao que tudo indica, desta vez, não tem volta. A mídia está, conforme a gíria corrente, “bolada”. O Globo vem manifestando há algumas semanas seu descontentamento com a série de reportagens sob o título “O congresso mostra suas entranhas”. Já o jornal Folha de S. Paulo optou por uma designação mais simples: “Congresso em crise”.

Evidentemente, tanto a “crise do Senado” como a tentativa de se criar uma CPI para investigar possíveis desvios de conduta da Petrobras são sintomas de um adultério. A grande imprensa brasileira, desde a eleição presidencial de 2002, mantém relações fogosas com a oposição. É claro que ela nunca amou verdadeiramente o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porém, o que era inicialmente uma singela dor de cotovelo transformou-se em psicose.

Talvez, o maior ressentimento para com o governo atual esteja relacionado com a criação de mitos-midiáticos. Ora, quem poderia esquecer o mito da jovialidade, encarnado pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello; ou, ainda, o mito da intelectualidade, encarnado pelo sociólogo e também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ambos, assim como o personagem Ronaldo, o Fenômeno (outrora Ronaldinho) e o falecido rei do pop Michael Jackson, foram forjados por um artesão que, apesar da indubitável habilidade, mostrou-se incapaz de mitificar o operário ou, se preferir, “o sapo barbudo”.

Embora a personalidade de José Sarney não seja mítica – afinal, ele é apenas um patriarca –, sua derrocada o será. Se o leitor permitir, gostaria de fazer uma analogia um tanto forçada entre ele e o rei do pop. Ambos ganharam visibilidade e receberam as honrarias destinadas ao rei-filósofo. Ambos envolveram-se em escândalos, picuinhas e inúmeros “mal-entendidos”. Ambos, tal qual a mídia brasileira, dançam a mesma dança: moonwalker, cujos passos para trás impossibilitam o fluxo da História. Mas as semelhanças param por aí. Michael Jackson morreu, ainda que os fãs-fundamentalistas afirmem o contrário; José Sarney, estando ou não no Congresso, é imortal, menos pela função de literato do que a de oligarca.


* Texto publicado no Observatório da Imprensa

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Duas doses antes de morrer


Estávamos, meu porco e eu, caminhando pelo calçadão de Copacabana. Ele fazendo suas necessidades fisiológicas; eu olhando às bundinhas made in Brazil das moças, tentando discernir o que era feito pelo artesão do que era feito pelo operário. Enquanto os meus olhos percorriam as pernas cativantes de uma morena, uma senhora, dessas que se exercitam nas hidroginásticas da orla, vestida num biquíni de estampa felina, ameaçou-me com um olhar fulminante, como se eu estivesse tragando um cigarro.

– Eu vou te denunciar para a OMS! Você não lê jornal? – gritou, estridentemente, a senhora com corpinho de 71 e trejeitos de 17.

Sem entender por que cargas d´água fui submetido à tamanha agressão, resolvi tomar um banho de mar. De repente, um rapaz, que provavelmente não descendia dos australopithecus - pois não possuía nem uma grama de pelugem, embora algumas madeixas oxigenadas pendessem sobre à sua cabeça -, avançou, com a quilha cortante da sua prancha de surfing, para o focinho do meu porco. Ia chamá-lo de vegetariano recalcado quando, num átimo, brotaram das profundezas do mar meia dúzia de bermudas hawaianas.

Depois de me desvencilhar daquela tribo contemporânea, cujo vernáculo haviam assassinado, acreditei que merecia uma cerveja. Mas, logo em seguida, o dono do quiosque me fez desacreditar.

– Amigo, hoje estamos com uma boa promoção. Se você tomar duas doses de tequila, ganha uma porção de bolinho de bacalhau. – disse-me.
– Quantos bolinhos? – perguntei.
– São oito bolinhos, deste tamanho, no capricho.
– A tequila é prata ou ouro?
– É a melhor tequila da América Latina! – desconversou o mulato inzoneiro. – Veio diretamente do México.

Eu estava demasiadamente aturdido para fazer maiores questionamentos. Pedi duas doses, pois não acreditei que oito bolinhos saciariam o meu apetite. O quiosque estava razoavelmente cheio. Na mesa ao lado, uma mulher falava no celular:

– Amorzinho, já comprou a máscara antigripe suína e o aparelho de choque do Alvinho? – intimou a inquisidora. – Querido, eu não quero te pressionar, mas não se esqueça (sua pele clara ganhou um tom rubro) que TODOS os amiguinhos do nosso filho estão muito bem preparados para o século XXI!

O monólogo repentinamente cessou. O marido deve ter perdido o sinal. Quando mal terminei de digerir aquele diálogo involuntário, o garçom trouxe o meu pedido. Gostaria de ter feito um brinde ao meu suíno, Roche, que fora deportado do epicentro da milésima crise do sistema de capital, porque, segundo as autoridades, imigrou ilegalmente, mas o Marcelo Rezende, ao aparecer na TV com a sua voz fúnebre, despertou a minha atenção:

– A Organização Mundial da Saúde decretou, pela primeira vez na história da humanidade, pandemia global.

Aquelas palavras desestruturaram-me. A hecatombe era inevitável. E nem Marx, nem Mãe Dinah previram esse fim lastimável. No entanto, os meios de comunicação noticiaram. Olhei para o meu porco; ele me interrogava com os seus olhos de desterrado:

– O que foi feito de Vera?

Eu não sabia a resposta. Sabia que não havia escapatória. Antes de morrer, tomei as duas últimas doses latino-americanas.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Releituras de um Golpe Militar


O Ministério da Justiça organizou, no dia 31 de Julho, uma audiência pública cujo tema principal não agradou às Forças Armadas: os crimes de tortura durante a ditadura militar. O evento, intitulado "Limites e Possibilidades para a Responsabilização Jurídica dos Agentes Violadores de Direitos Humanos durante Estado de Exceção no Brasil", reuniu ministros, advogados e representantes de entidades da sociedade civil. Embora esta seja uma tentativa de fortalecer a democracia brasileira, os militares e a imprensa insistem na hipótese do revanchismo de esquerda.

Diferentemente de outros países da América Latina, que também passaram por governos ditatoriais, o Brasil optou por uma transição pacífica para a democracia. Em 1979, o general João Batista Figueiredo (1979-1985) sancionou a Lei de Anistia, dando continuidade ao processo de abertura política “lenta, gradual e segura” iniciada no governo do general Ernesto Geisel (1974-1979). A anistia brasileira perdoou tanto os opositores que haviam sido torturados ou mortos, como os militares e torturadores. Dessa forma, cobrindo com lençóis camuflados o sangue derramado, o Brasil mostrou que a impunidade estava arraigada em sua História.

Os ministros Tarso Genro (Justiça) e Paulo Vannucch (Direitos Humanos) defendem a punição dos torturadores: “O Brasil precisa saber o que aconteceu. Precisa saber que o [Wladimir] Herzog e o Rubens Paiva não desapareceram, foram presos e assassinados pelo aparelho de repressão. Não fazemos isso em enfrentamento, mas em defesa das Forças Armadas", afirmou Vannucch. Alguns representantes das Forças armadas, no entanto, como publicou o jornal O Estado de S. Paulo, irão se articular para rebater as críticas. Esta é a primeira vez, desde a redemocratização, que os militares se organizam para uma ação política de confronto.

O que está no cerne da discussão não é a revisão da Lei de Anistia, como ratificaram os ministros, mas o desmascaramento de um acontecimento que marcou profundamente o País. É preciso separar torturados de oportunistas (muitos estão recebendo indenizações milionárias) e torturadores de militares que não são responsáveis por nenhum tipo de crime. Mas aqueles que violaram os direitos humanos merecem, senão punidos, ser reconhecidos pela sociedade. O Brasil precisa olhar para sua verdadeira face, pois a fictícia ameaça se desfigurar a qualquer momento.

Duas décadas depois do fim da ditadura brasileira, é interessante notar (e preocupante) como há setores da sociedade que olham para trás com certo saudosismo. Hipnotizados pela ilusão do “milagre econômico”, surdos pelos tiros de fuzil e cegos pelo sangue jorrado, preferem acreditar que outrora o Brasil era um país decente. Contudo, esquecem que pagaram um preço alto pela “segurança nacional”. Hoje, está longe da perfeição, caminhando a passos curtos. Caso decida pela revisão crítica de sua história, dará um grande salto rumo à construção de um Brasil mais justo.

sábado, 26 de julho de 2008

Uma relação de amor e ódio


O sistema caiu, os computadores pararam de funcionar: uma ótima oportunidade para se reavivar as relações interpessoais. Assim, meus companheiros de estágio e eu fomos para a área de fumantes (quase ninguém fuma). Enquanto a conversa, prosa, papo ou troca de idéias se engendrava por várias veredas, eu já aguardava ansioso pelo tema principal: o futebol. Mesmo não gostando de tal modalidade esportiva, é inegável o prazer que tenho em observar as discussões futebolísticas. Tudo estava indo muito bem, até que perceberam meu mórbido silêncio: “O que você acha disso?”, interrogaram-me ironicamente, pois sabem o quanto sou hostil ao esporte. De repente, um outro mais indignado tentou me persuadir com argumentos quase fascistas: “Você é brasileiro, carioca, homem, por que não gosta de futebol?”. Respondi de forma fascista: “Você gosta de jiló?”.

Quando eu nasci, o futebol já era a paixão nacional; o Brasil era Tricampeão da Copa do Mundo; Pelé havia se aposentado e Garrincha havia morrido. Acho que, no dia do batismo, a criança tinha o dever de escolher um time. Na falta de opção, escolhi o Vasco da Gama, time do meu pai. Este, sempre assistia aos jogos, gritava, ficava feliz e irritado. Mas seu "amor" pela camisa não era o mesmo do meu tio flamenguista. Camisa, bermuda, sandália, boné, camisinha, tatuagem, tudo representava o Flamengo. Talvez este fanatismo possa ser explicado pela psicologia das cores vermelha e preta. O futebol estava - e está - em todos os cantos. Na escola, durante as aulas de Educação Física, se não houvesse uma partidinha, os alunos se rebelavam contra a instituição de ensino. Como achava demasiado enfadonho ter que optar entre futebol, vôlei ou basquete, preferia tentar convencer o porteiro a me deixar sair da escola.

Na infância, entrei, junto com meu irmão, em uma Escolinha de Futebol. Eu era brasileiro, todos veneravam o futebol, respiravam futebol, transavam pensando em futebol; não era possível, tinha que gostar de futebol. Até porque, mesmo tendo certeza de minha sexualidade, logo iria ser chamado de gay ou alienígena. Nessa escolinha, vivi experiências assustadoras. Faltava-me habilidade, precisão e jeito com a bola. Tinha que escolher entre ficar no gol ou no banco. Escolhia o primeiro, pois era persistente. Durante os jogos, pais e mães enfurecidas bradavam para que seus futuros craques fizessem a jogada certa. Infelizmente, meus pais não eram assim. Do contrário, teriam presenciado a elegante jogada que fiz ao bater com a cara na trave. O técnico e o time, é óbvio, jogaram-me na fogueira.

Em uma das poucas conversas que tive com o pai da minha namorada, ele me perguntou: “Você gosta de jogar futebol?”. Respondi que não. Pronto, virei um monstro. Voltando à conversa (o sistema ainda não havia voltado. Mau para a empresa; bom para o futebol). Depois de ter respondido, com uma pergunta, a pergunta do meu colega, o papo voltou a fervilhar. Percebi que o verbo odiar estava sendo conjugado por quase todos que ali estavam: “Eu odeio aquele jogador!”; “Aquele locutor é um idiota!”; “Eles se odeiam”. Percebi que no futebol, como num relacionamento, há uma dissonância entre o amor e o ódio. O esporte mexe com as emoções, com os sentimentos daqueles que o apreciam. Perguntei-me qual era a diferença daquela conversa para uma que tivesse como tema principal a novela ou o BBB. Não achei nenhuma. Ambas envolvem desde a criação de estereótipos e preconceitos, até a passividade acrítica dos indivíduos.

Eu poderia falar que o futebol não é mais o mesmo dos tempos áureos. Mas não sei quando foram esses tempos. Poderia dizer que não gosto, e ponto. Mas assim, estaria compactuando com os argumentos infundados que impregnam tais conversas. Prefiro acreditar que esta é mais uma questão complexa, que não será respondida pela lógica binária. Por que apreciamos determinada música? Por que gostamos daquele tipo de comida? Por que alguém nos atrai? O meio e a cultura em que estamos inseridos podem responder, talvez, uma parcela destas perguntas. Quanto à outra, somente a idiossincrasia, a subjetividade, as particularidades e, quem sabe, o DNA de cada um de nós responderá. Somos brasileiros, sim; mas, acima de tudo, somos seres humanos e heterogêneos.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Um cárcere chamado Brasil


Na colonização brasileira, como em outras colônias da América, a mão-de-obra escrava fora a escolhida. Com o respaldo da Igreja Católica, os índios deixam de servir a tais fins. Isto, contudo, não significa que passariam a viver em liberdade; até porque a Igreja, além do corpo, viu na alma um meio para se expurgar a excentricidade de tais povos. A solução encontrada pelos europeus, para suprir a falta de uma demanda que exercesse trabalhos subumanos, estava na África. Trazidos por traficantes, nos porões dos navios, os negros aportaram em um cárcere chamado Brasil.

O enriquecimento de setores da Europa e, posteriormente, da elite brasileira se deu à custa da perniciosa política escravocrata. Desprovidos das necessidades básicas de qualquer ser humano, dormindo em senzalas imundas, úmidas, e muitas vezes acorrentados, os escravos recebiam o açoitamento como punição, caso não mantivessem o comportamento “adequado”, de acordo com a vontade do algoz. Além disso, eram proibidos de executar, manifestar e praticar qualquer tipo de ritual ou religião que não fossem os da cultura dominante.

No dia 13 de maio de 1888, o Brasil - com um atraso deplorável - decreta o fim da escravidão. Talvez, se não fossem as pressões da Inglaterra (visando os seus interesses), essa penosa realidade iria se perpetuar em terras brasileiras por mais alguns decênios, séculos! Embora seja considerada como a cura de todos os males, a Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel, serviu, somente, como estratégia para dar à população negra respaldo de libertação jurídica, pois o número de negros sob o regime escravocrata já havia diminuído drasticamente. Além de algumas leis anteriores (cobertas de igual cinismo), foram os próprios negros que lutaram pela sua liberdade.

As condições para se viver dignamente, o direito à igualdade, a garantia da terra e o reconhecimento da população negra, que não foram outorgados com a Lei Áurea, hoje, em pleno século XXI, fazem parte de uma utopia. Entre as inúmeras questões que acentuam tal problemática, três devem ser destacadas: 1º - o Brasil é essencialmente miscigenado; logo, não há nenhuma “raça pura”; 2º - as riquezas culturais provêm da junção de todos os povos que no Brasil estiveram; 3ª – enquanto a hipocrisia e o cinismo impregnarem as mentes, nenhuma mudança, considerável, ocorrerá. A dívida para com a população negra só contribui para o regresso do País.

Por fim, reproduzo o que Machado de Assis, neto de escravos, havia escrito em uma de suas crônicas, no dia 19 de maio de 1888, seis dias após a assinatura da Lei Áurea:

“[...] toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa dos seus dezoito anos, mais ou menos [...] e dei um jantar [...] no intuito de dar-lhe aspecto simbólico [...] Levantei-me eu com a taça de champanhe e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado [...] Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo”.



sábado, 10 de maio de 2008

O país da delicadeza perdida


No dia 29 de março, a menina Isabella Nardoni, de 5 anos, fora asfixiada e arremessada do 6º andar do apartamento do seu pai, Alexandre Nardoni, e da sua madrasta, Anna Carolina Jatobá. As especulações em torno do caso ganham diferentes matizes em diversos âmbitos da sociedade. No entanto, após um mês do assassinato, o caso parece estar longe de um desfecho. Nesse momento, de comoção nacional, nossas deficiências tornam-se mais nítidas, tanto no que diz respeito às estruturas jurídica, política e social, quanto no desenvolvimento de nossa cidadania.

Nos últimos anos, as tragédias brasileiras (como a do menino João Helio) têm adquirido um caráter “clichêrizado”, como se houvesse uma seqüência premeditada: 1º - morte trágica; 2º - circo midiático; 3º - indignação seguida de um excesso de fúria; 4º - confecções de camisas, “shows” e missa de 7º dia, com cobertura da mídia e 5º - amnésia, seguida de retardamento. Neste quadro surrealista, encaixa-se a perícia do caso Isabella e a nossa Constituição. A primeira, mesmo com um enorme aparato tecnológico, mostrou-se ineficaz: por que, logo após o assassinato, o apartamento não fora lacrado? Não sei. Quanto à segunda, é evidente a caduquice da legislação brasileira.

As feridas expostas mostram-nos, também, o modelo jornalístico escolhido pelos meios de comunicação. Nas bancas, jornais e revistas noticiam o caso diariamente como em um antigo folhetim, manchetes fazem o seu próprio julgamento: "Foram Eles" (capa da revista Veja – 23/04/08). Isso sem falar no frenesi da tevê brasileira, na busca do exclusivo, do grande furo. Entre articulistas e colunistas surgem novos “opinadores” na imprensa brasileira. O jornalista Artur Xexéu, por exemplo, em sua coluna no jornal O Globo, mostrou-se perplexo diante dos fatos, mas manteve a imparcialidade diante da morte da menina de 5 anos. O cineasta, crítico e colunista Arnaldo Jabor, no entanto, usou o espaço (coluna) para praticar o mesmo julgamento dos demais meios de comunicação.

De fato, a falência múltipla dos órgãos acomete todo o Brasil. Na falta de análises críticas e profundas, vivemos na lógica do absurdo. Neste caso, nem a imparcialidade do Xexéu, nem o julgamento do Jabor contribuíram para a saúde nacional. Nosso Jornalismo banha-se na superficialidade dos trópicos. A inércia brasileira não permite que a sociedade olhe para o passado; mas está longe de uma projeção voltada para o futuro. Perdemos a percepção, a delicadeza. Continuamos apáticos. E, enquanto assim estivermos, somos culpados.